quinta-feira, 5 de novembro de 2009


Resolvi mudar tudo

Um dia descobri que minhas inquietações poderiam ser reproduzidas em fábulas e acabei me tornando um ‘garimpeiro tragicômico’ do sofrimento. A menina que é abusada, mas ainda vê o mundo de forma inocente (Sonho de Pano¹); o cigarro que toma conta do fumante (Baile dos suspiros²); a menina que tem que enterrar um irmão morto e consolar o outro que ainda está vivo (Os três anjinhos³); acho que foi por aí que despertei.

O sofrimento é sufocante e extremamente fascinante, emocionante, incômodo; ELE É ÓTIMO e tem um potencial incrível para envolver as pessoas. Mas se banalizado como quase chegou (ou chegou) a ser aqui, ele perde sua real função e se torna uma praga. Diferente da menina, nos enterramos com o que está morto e abandonamos o que ainda tem potencial para viver.

Esse potencial tem me assombrado, ver que mesmo com todas as misérias da vida ainda existem pessoas que convivem com as lástimas e são felizes simplesmente por ser, sem subverter as coisas puramente puras. Eu não quero ser um canal de sofrimento por mais que isso alcance algum ápice literário, a vida é o que mais importa. Deixemos que os mortos enterrem seus próprios mortos. Nós estamos vivos, mesmo que isso seja desafiador demais para alguns.


Textos mencionados:

[1] http://pinicoescondido.blogspot.com/2009/01/sonho-de-pano-espera-ansiosamente-o-fim.html#comments

[2] http://pinicoescondido.blogspot.com/2009/01/baile-dos-suspiros-o-corpo-de-fumaa.html#comments

[3] http://pinicoescondido.blogspot.com/2009/02/os-tres-anjinhos.html#comments

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Ponderações


A vida do filho ainda segurava seus pés na escada

Na corda descansava o peso insuportável de sua desgraça

E não havia amor que desfizesse o nó na garganta.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Malabaristas, acrobatas, palhaços e ilusionistas.

Por poucos instantes ele sente o privilégio do sobrevoar por aquele cenário.

Vê a emoção estampada em todos os rostos de homens, mulheres, crianças, idosos e até alguns animais que se assustam com o espetáculo ininterrupto e barulhento. Um picadeiro cheio de palhaços armados alvejando com balas o público, que sentia na pele pasmos, espasmos e desmaios. A cena se arrasta escurecendo famílias inteiras sob a lona, a peça se aloja e atravessa corações, abarrotando num vermelho barrento os projéteis lançados.

Aves pirofagistas contracenam acinzentando com fumaça o céu, recortando nuvens secas com seus corpos de aço.

Ele vai se enchendo de uma honra imensurável, por saber que seu papel ali será fundamental.

Finalizando seu ato, se despede num choro apreensivo, era a única vez que faria “O Homem bomba!”

Mesmo nunca estado preparado, seu desfecho fora perfeito entre os escombros. .

quinta-feira, 16 de julho de 2009



Maldito aquele que de alma aberta
Encara o espelho
Que constrange seus temores
Sob a clareza da sanidade

há de necessitar um dia
dos próprios segredos
abraçar o próprio peito
fugindo do mal escondido
a sombra de si

por hora
renda-se à vida
construtora dos abismos e cicatrizes
que sustentam o lixo
à fim de que se reconstrua todos os dias

nunca estar completo
por essa fome

tão infinita quanto ela
não morrer antes do corpo.

sábado, 11 de julho de 2009

Olhares das crias

Mesmo faminto sabia que era melhor que estar morto o bastardo da cadela solteira que se engraçou com o primeiro vira-lata que aproximou do portão.

Queria voltar às patas da mãe, durante dois dias foi seu maior sonho dentro de uma sacola num terreno baldio.

Pobre cãozinho, as orelhas maiores que a cabeça, uma ferida na pata e pulgas do tamanho das unhas.

Encontrado por um homem grosseiro de cheirar mal e nunca sorrir. Mas havia ternura ali dentro daquela casca cascuda cheirando mais forte que seu vômito. Dividiam a mesma comida, o mesmo papelão e a mesma rua. Mesmo humano, parecia entender o valor do céu que compartilhavam.

Tinha valores de um cão aos olhos do cãozinho, e dos transeuntes.



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domingo, 5 de julho de 2009

Constelação


e como eu queria

que nunca adormecesse

o brilho nos teus olhos.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Cegueira

Então chorar por abrir a guarda, por deixar entrar em minha carne, e ficar com um buraco de solidão.

Janela escancarada para os dias frios. Muitos deles passaram, eu sempre fria. Continuaria fria, sozinha, perdida entre todas as ambições escancaradas como feridas abertas nesses olhos tristes.

Não descarto o fato de que ainda viriam muitos verões, mas foi olhar seus olhos. Olhar assim tão de perto lhe cravou na minha visão.

Seu vulto estaria sempre impregnado aos meus olhos. Minhas córneas cada dia mais opacas, conforme lhe via em cada nascer e pôr de sol.

quarta-feira, 3 de junho de 2009


Sobre a minha virgindade!



Estouraram o cabaço da minha alma, me fizeram sangrar. Não sinta nojo, esse nojo do sangue, mas foi isso, foderam com tudo! Foi certamente um estupro, meu sangue ta pingando ainda.

Eu era tão virgem, meu Deus como eu era virgem! Como eu era seu, Deus! Meu espírito ta puto.

Eu gostava da babaquice das flores que não eram babacas pra mim, hoje gosto de dinheiro
que não é babaca pra ninguém!

Aprendi a acordar cedo, sem os pássaros, fazer as olheiras à navalha e cobrir a barba com pó, (sim, de mulher!) pra manter o olhar febril, pra me sentir mais seguro ao olhar pro mesmo espelho, montando o olhar com o qual permanecerei montado.

Aprendi a olhar pro sexo, aquele que divulgam mais, a consumi-lo a todo o tempo, a consumir o necessário do mundo, aliás, desse mundo aí.

Aprendi a abrir os olhos pra beijar quem amo sem correr riscos! Aprendi abrir os olhos também para as crenças mais plausíveis, pra abraçar um deus, sem correr riscos!

E eu estou sempre me preparando, pra não me sentir mais forçado, ou abusado na próxima transa.

quinta-feira, 14 de maio de 2009



Borboletas no estômago


A menina era tão pequena para o mundo, que vivia enfiada em seus poemas guardados num caderninho brochura rosa.

Chovia forte, e ela desprotegida protegia o caderno nos braços finos que o vento balançava. A perninha perdida na água da enxurrada o deixou cair de suas mãos e descer boiando até o esgoto. De desespero ela chorou tanto quanto o céu.

O cadáver de uma borboleta violentada pela tempestade boiando n’água suja. O tempo permaneceu fechado dentro dela. Do romantismo, os sonhos afogados.

Primeira experiência, depois viria o casamento estável, e esse sentimento constante de borboletas mortas no estômago.

domingo, 3 de maio de 2009


Depois de engolir o céu



Há dias de vida, outros a gente corre com olhos distantes, queremos fugir do que somos, mas nós sempre somos nós em nós. Até no desejo de fugir.


- Não há por que sentir medo - pensava. Depois de completar mais uns segundos de entusiasmo, nem mesmo a premonição de voltar breve ao mesmo estado de estagnação interrompia a sensação doce do meu sangue. Poder me encarar no espelho quase me dando por satisfeito, por conseguir ignorar a luz do sol e depois das estrelas, onde Deus sempre me convidava a reconhecer ironicamente as sombras que escondia.


Abri os pulsos com desculpa de lavar as mãos com o sangue doente. Ainda em tempo Deus voltava com o sol, em vão, minha ânsia era clara e doía em branco, cegava todo poder de fora. Eu deixava de ser cada célula imatura brigando e invadindo os meus tecidos que também eu era. Os desmaios, as dores, a palidez e a leucemia.


Os segundos mais agudos, eu era intenso, quase um sorriso se despedindo de mim.